O VAZIO TECNOLÓGICO DA AMAZONIA, visto por brasileiros comuns...
- ricarddo de barros

- 10 de jun.
- 3 min de leitura

A Amazônia tem uma socio bioeconomia imperfeita e de pequena escala. Rica em biodiversidade, a região ainda conta com pouca infraestrutura para transformar recursos da floresta em produtos de maior valor agregado.
Um estudo publicado na revista internacional Sustainability revelou um problema pouco discutido: o vazio tecnológico da Amazônia. A escassez de infraestrutura para transformar produtos da biodiversidade ajuda a explicar por que a sociobioeconomia amazônica ainda enfrenta dificuldades para prosperar.
Um retrato abrangente da bioindustrialização amazônica
Em um estudo conduzido ao longo de dez anos, colegas pesquisadores…
e eu realizamos uma das análises mais abrangentes feitas sobre a composição e distribuição espacial das biofábricas baseadas na biodiversidade na Amazônia brasileira… -
O levantamento identificou 187 biofábricas na região. Essas unidades industriais têm infraestruturas capazes de transformar matérias-primas da biodiversidade em produtos processados, como alimentos, cosméticos e químicos orgânicos. À primeira vista, o número pode parecer expressivo. Mas, diante da escala amazônica, ele revela um cenário de forte limitação infraestrutural.
As biofábricas foram identificadas em apenas 72 dos 559 municípios da Amazônia brasileira. Isso sugere que cerca de 90% dos municípios amazônicos no Brasil podem enfrentar fortes limitações de infraestrutura para agregar valor aos produtos da biodiversidade.
Mais que um dado estatístico, isso sugere um problema…
uma parcela significativa da população amazônica está potencialmente distante de estruturas capazes de gerar valor localmente a partir dos produtos da floresta.
A distribuição dessas unidades também é altamente concentrada. Metade das biofábricas identificadas está localizada em apenas seis municípios: Manaus, Belém, Castanhal, Santarém, Benevides e Igarapé-Miri. Isso ajuda a explicar um dos paradoxos históricos da Amazônia: uma região extraordinariamente rica em biodiversidade, mas ainda limitada na capacidade de converter essa riqueza em desenvolvimento local.
A baixa presença dessas biofábricas torna-se ainda mais evidente quando comparada a outros segmentos industriais da região…
em Manaus, o Polo Industrial reunia 553 fábricas, concentradas principalmente na produção de eletrônicos, motocicletas e produtos químicos.
O contraste sugere que, historicamente, a industrialização na Amazônia brasileira recebeu mais investimentos em atividades ligadas a espécies exóticas, como a pecuária bovina, e em setores inseridos na economia global, enquanto a industrialização da biodiversidade regional permaneceu limitada…
O problema da limitação de infraestrutura local
Os dados do estudo mostram que a maior parte das biofábricas opera no setor alimentício, responsável por 74% das unidades identificadas. Cosméticos representam 14%, enquanto químicos orgânicos respondem por apenas 9%. O padrão revela uma industrialização ainda concentrada em processos de baixa intensidade tecnológica.
Em vez de indústrias avançadas, o que predomina na Amazônia é um processamento relativamente simples dos recursos da biodiversidade. Quando uma região tem infraestrutura industrial limitada, a tendência é que seus produtos saiam do território com baixo nível de…processamento. O valor agregado associado a produtos mais sofisticados acaba sendo capturado em outras etapas da cadeia produtiva, frequentemente fora da própria região.
A limitação de infraestrutura local também ajuda a perpetuar relações econômicas historicamente desiguais. Em diversas localidades amazônicas, intermediários ainda desempenham papel central na comercialização dos produtos da biodiversidade, comprando produtos extrativistas a preços reduzidos e revendendo mercadorias essenciais por valores elevados. Essas relações comerciais abusivas persistem há séculos na Amazônia…
A ausência de registros de biofábricas na maior parte dos municípios amazônicos não deve ser interpretada como evidência definitiva de inexistência. Em muitos casos, ela pode refletir tanto a limitada infraestrutura industrial quanto a escassez de dados sistematizados sobre as biofábricas na região.
Por isso, o estudo organizou, documentou e publicou o conjunto de dados analisados, o que poderá apoiar novas pesquisas e contribuir para um retrato progressivamente mais completo da bioindustrialização amazônica
Ainda assim, os resultados apontam que a Amazônia não enfrenta apenas desafios ambientais ou a pressão do crime organizado. O estudo das biofábricas sugere que um de seus maiores obstáculos ao desenvolvimento também está relacionado à expansão sustentável da tecnologia.
É necessário criar condições para processar a biodiversidade localmente, ampliar inovação, fortalecer pesquisa aplicada e expandir o acesso a tecnologias adequadas às condições da floresta e das populações locais. Enquanto a floresta continuar fornecendo principalmente matéria-prima e as biofábricas produtos de baixa intensidade tecnológica, o potencial de uma sociobioeconomia inclusiva e escalável seguirá longe de…tudo.
fonte UOL.




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