Ansiedade não é bobagem, e predisposição pode ser herança de família, pense bem...
- ricarddo de barros

- 19 de jun.
- 4 min de leitura

Quem vê Maria Eugenia Bragante, 63, tomando um chá e lendo um livro em uma padaria de Paris não suspeita que já foi hospitalizada três vezes com falta de ar. Ela sofre de TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada).
Maria é filha de um diplomata e de uma artista plástica e viveu em diversos países. Na infância, sentia falta de ar antes de mudanças de casa e escola. "Minha mãe até pensou que eu tinha asma", relembra.
Os sintomas se tornaram mais corriqueiros e intensos com o tempo. Sem diagnóstico de asma e com exames normais, ela percebeu, durante um curso de literatura, que seus sintomas poderiam ser de ansiedade
"Foi por causa de um comentário de uma colega que entendi que tinha transtorno. Hoje vou à terapia toda semana e ao psiquiatra uma vez por mês."
"Meu caso foi bem diferente. Antes de uma apresentação, entrevista de emprego, vestibular, eu ficava irritada. Até meio violenta às vezes", conta Marina Bragante de Almeida Silva, filha de Maria Eugenia.
Ela foi diagnosticada com TAG há quatro anos. E a ciência ajuda a explicar por quê.
Segundo estudo publicado na revista científica Nature em fevereiro, parte da predisposição à ansiedade é herdável e compartilhada entre familiares por meio da genética.
"Parte" porque os pesquisadores não descobriram um "gene da ansiedade", mas um conjunto de genes.. essas variantes aumentam a chance de uma pessoa desenvolver transtornos de ansiedade.
A ansiedade é discutida no primeiro episódio do videodcast Missão Saber, do UOL, apresentado por Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL, com participação da colunista Daniela Lima…
"A ansiedade tem fatores de hereditariedade já demonstrados e especulados, mas esse estudo reforça e traz mais luz para o tamanho dessa hereditariedade", explica Alan Campos Luciano, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.
A pesquisa foi considerada uma das maiores realizadas sobre o tema por incluir em sua análise principal 122.341 pessoas com transtornos de ansiedade para contrastar com 729.881 controles (pessoas que não eram diagnosticadas com o transtorno).
As amostras, provenientes de diversos países, foram colhidas por meio de um consórcio internacional coordenado pelo Psychiatric Genomics Consortium.
"É como se a gente tivesse alguns genes que codificam uma resposta…
É o que a ciência chama de "nature versus nurture", o peso que a genética ("nature") tem em comparação com o estilo de vida ("nurture") no desenvolvimento humano.

E, se hoje Maria Eugenia anda devagar, é porque já teve pressa. Ela diz que se encontrou na meditação após ler que o bilionário americano Warren Buffet também pratica. "Se um cara como ele tem tempo para meditar e estar presente, a gente também tem de ter."
"Se você leva um estilo de vida mais regrado, mais saudável, você, apesar de ter esses genes, atenua essas características", diz Campos Luciano
Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo
Atualmente, vivemos em um mundo moldado por hiperestímulos em uma velocidade cada vez mais alta…
"É um momento ímpar na história da vida da humanidade, porque a ansiedade, numa perspectiva darwiniana, foi selecionada", diz o psiquiatra Campos Luciano.
O médico cita os homens pré-históricos: sem ansiedade, seriam presas fáceis de predadores, não se preocupariam com a alimentação e os filhos morreriam de fome. "Hoje somos o puro suco da ansiedade selecionada", diz.
Um suco que ainda está sendo batido no liquidificador. Marina conta que não conseguia ficar longe do aparelho nem durante o banho.
Tinha a impressão que poderia ser demitida ou que algo aconteceria com a minha filha se não visse alguma mensagem.
Marina Bragante de Almeida Silva
"O ritmo contemporâneo gera o que chamamos de estresse."
Nossos recursos internos diante de tantas cobranças", diz Rachel Sette, professora de Psicologia do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte.
Para a psicóloga, a regra é clara: se o mundo não para, é preciso que nós saibamos quando parar.
"Para lidar com esse sentimento constante, é preciso adotar estratégias de desaceleração voluntária e fazer com que o descanso seja integrado à agenda como uma necessidade fisiológica e mental, e não apenas como uma mera recompensa", diz.
Ela sugere, como alternativa, praticar a ancoragem no presente, se exercitar regularmente e fazer higiene da informação, que envolve evitar o excesso de estímulos
Maria Eugenia afirma que, sempre que pode, orienta os filhos a levar uma vida mais calma, manter hobbies e ler sobre o tema.
"Meus netos são pequenos, um tem três anos e a outra acabou de completar um ano. Tenho muita preocupação em como eles irão lidar com esse sentimento. A TAG já me barrou de concretizar coisas de tantas formas que é impossível não temer por eles", reflete Maria Eugenia…
"No contexto familiar, o comportamento diário é a principal ferramenta de prevenção: o ambiente doméstico pode regular ou amplificar essa herança biológica. Como crianças aprendem por espelhamento, adultos devem praticar a regulação emocional e evitar reações de desespero", completa Rachel Sette.
Marina Bragante conta que transparecer a ansiedade pela irritação é seu maior medo.
"Já completei o bingo do burnout: briguei, gritei, tive alergia, taquicardia, desmaiei. Remédios e terapia ajudaram, mas foi na gravidez que entendi que minhas urgências não eram tão urgentes. Ainda tenho crises, mas o que quero é sossego, como diz Tim Maia", diz, pouco antes de entrar numa aula de ioga.
FONTE : UOL




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